Plateia

Corda bamba que não vê
O final traçado em si
Cerrado no circo da vida
Que um dia vivi.

Trapézio estável goza
Com quem nada é e sente
A ausência do público
Íntimo da mente.

Aberração do povo,
Aplausos, ovação em nada
Risos que choro invocam
Em quem morre enclausurada.

Agora paga bilhete viciado
Para mais um espetáculo que pedes
Não me descubras, não sou nada
Apenas nomada sem veste.

Cadência

Provocar-te o riso de ânsia e desejo talvez quebre o muro que em transparência se opõe em nós.
Sinais do zero que nasce em mim.
Rasgar o passado ou talvez o presente e fechar os olhos da consciência em mente real. Provocar-te o olhar de sorriso antigo que renasce.
Metáfora da vida, ironia da rotina. Crescer para a terra. Os campos do sol frio.
Que o acontecimento seja rajada de vento memorável. Rápido e eterno.

nua

Se retiras de mim alça
de seda lenta desliza em ti
o esvoaçar arrepiante que
range em fala descalça.

Demorado, liberta o acelerado
coração, músculo, e trémula mão
que toca em minh'alma fria
suspirando o agora futuro.

Cai no chão veste pesada
que cobria medo e desejo
dando lugar a experiência ousada
escondida no liberto gracejo.

Abafas o grito
proferindo maior volume.
Nua de mim, de nós.
Vazia, perfume.




(Não) Sou

Não sou mais eu,
mas a imagem. De mim.
O eu, reflexo partido. O outro.
Quem sou, foro psicológico,
físico demonstra zero negativo.

No riso gozo
olhar afiado e lançado ao pormenor.

Não sou mais eu,
mas quem me pinta. E vê
o que a mente mastiga, e sacia
por observar.

Corpo, carne. Oco
sem para além. Apenas aqui.
Não em mim.
Não sou mais eu,
mas as histórias criadas,
boatos fantasma.

Perfeito inventado como flecha
para quem nunca chegará.
Metade. Valho menos.
Água e sangue. Ou apenas tinta.

Sou mais eu,
quem não conheces.

Ressaca

Devaneio do ser eterno
Um golo a mais de juventude
Pensar em não pensar, efémero
de nada ser o resto
ou onde o fumo levar.

Uma lágrima de velhice
mascarada por alegre ser,
gritos intervalados de ofego
e desfecho brutal em si.

Mais um golo de insanidade
Aqui, fechada em mim
E um bafo de delírio
Lá, para além de ti.

Momentâneo, me socorro.
Um breve e doloroso alivio
que volta e martela recordando
que o real não é superado
nem por mim ou por ti. Pelo martírio.

Do fundo, rasgado
ligeiro, pelo canto do olho.
Se vê, ou sente,
ou nada.

De embarque, à vela,
se leva, e tomba.
Rasga corpo nu,
e alma tão vestida.
Mergulha, nela.

De tudo, nada.

Exposta no escuro,
objecto.
Se nadas, foges,
no claro.

Desconhece o conhecido,
que na sombra se vai.

Procura de vida,
experiência. Novidade
que se rejeita.

Exposta no claro,
pessoa.
Se páras, ficas,
no escuro.