Há?

Há quem pense que talvez não pense. Ou que sinta o que penso e desminta o que sinto. Põe-se a hipótese de, imagine-se, até mentir sobre a verdadeira razão do ser real que tanto imaginei.
Mas o ilegível não é permitido? O sonho é caminho. Armadilhado, certamente.
E quando me perco? Quando, será?, o trilho se desvanece e nada me segura o andar. Flutuo porque não tenho chão.
Resta saber quando caio.

Há quem ache que acho demais. Ou que reaja pelo coração de forma racional. Até, acredite-se, ser demasiado a irrealidade do real que é ser-se o não ser.

Flutuo.
Caio.

Há quem ache que desistir é não se ser. Mas ser, ser é a incógnita  decisão, a tênue barreira entre o ir e ficar.

Flutuo.
Caio.
Vou.

Névoa

Que fumo passa, percorrendo em direção ao caminho certeiro. Cruzo a cabeça e vultos trespassam-me. Finjo-me insensível ao bruto calafrio que me atravessa a espinha. Nada. Silêncio  em demasia mas a calma está longe. O sol já se pôs há demasiado tempo e a luz lunar enfraquece.
Procuro guia. Perdeu-se. Ou talvez fartou-se de me acompanhar.
Caminho. Apresso-me. A escuridão empurra-me. Tropeço... Em ti. Irás agarrar-me? Cairei outra vez?
Corro. Serás minha sombra? Talvez imaginação.
Paro. Escuridão plena. Estou só. Nao te vejo.
Resgate. Virás?

Infância

O lixo cercado
Varrido para o canto
Escuro e vergonhoso
Esmagado por almas.

A boneca desprezada
Antiga e usada
Não ve ou sente
Que o pó repousa nela.

Pois a brisa que limpou
Que brincava querendo
Só mais um segundo
Na infância amorosa,

Essa brisa que secou
Que deixou no escuro
Canto a boneca usada
Que se apaga, que se desfaz...
De não mais ser desejada.