Não aprecio a maneira integra do invólucro emocional. Talvez o excesso de racionalidade provoque (ou quiçá expele...) a liberdade aprisionada nos meus processos sociais. O nada faz sentido apenas nos cruzamentos diários de almas penosas, que se lamuriam e riem esperando por mais um dia. Passado. Talvez a força do destino que não existe Se enerve com as falas carregadas de maldade natural. Não cria nela. Ela crê em meus rodeios e se faz notar, chatear, enterrar no espírito até que perfure o sorriso de saber (con)viver. Empurra o sinal de fraqueza desobediente que se confunde com o espírito alegre. A lágrima desorienta-se por falta de hábito. Mas não. A luta é parte da vivencia chuvosa e violenta, onde cada trovão me faz estremecer e pensar que está na hora de parar. Mas não está. Não me verão estática. Que venham as criticas ou comentários que tentam arranhar a alma. Que venham as pedras. Que venham, venham. Eu não venho, eu vou. O resto? Esse fica. Verei ao longe e acenarei sorrindo.
De volta à escrita e aos pensamentos da (suposta) realidade
Conta gotas
Consome, expele,
Ridiculariza o tempo passado.
Piada macabra, que fere
E derrama o sentimento abafado.
Experiência em nada científica
Ou crente. Burrice da mente
Ou do coração fora de prazo
O vazio que o nada amplifica.
Tortura molhada, conta
Repetidamente e vai esgotando
O que ainda retém,
Processo doutro além,
Mas verdade tocando
O que era intocável.
Plateia
Corda bamba que não vê
O final traçado em si
Cerrado no circo da vida
Que um dia vivi.
Trapézio estável goza
Com quem nada é e sente
A ausência do público
Íntimo da mente.
Aberração do povo,
Aplausos, ovação em nada
Risos que choro invocam
Em quem morre enclausurada.
Agora paga bilhete viciado
Para mais um espetáculo que pedes
Não me descubras, não sou nada
Apenas nomada sem veste.
Cadência
Provocar-te o riso de ânsia e desejo talvez quebre o muro que em transparência se opõe em nós.
Sinais do zero que nasce em mim.
Rasgar o passado ou talvez o presente e fechar os olhos da consciência em mente real. Provocar-te o olhar de sorriso antigo que renasce.
Metáfora da vida, ironia da rotina. Crescer para a terra. Os campos do sol frio.
Que o acontecimento seja rajada de vento memorável. Rápido e eterno.
nua
de seda lenta desliza em ti
o esvoaçar arrepiante que
range em fala descalça.
Demorado, liberta o acelerado
coração, músculo, e trémula mão
que toca em minh'alma fria
suspirando o agora futuro.
Cai no chão veste pesada
que cobria medo e desejo
dando lugar a experiência ousada
escondida no liberto gracejo.
Abafas o grito
proferindo maior volume.
Nua de mim, de nós.
Vazia, perfume.
(Não) Sou
mas a imagem. De mim.
O eu, reflexo partido. O outro.
Quem sou, foro psicológico,
físico demonstra zero negativo.
No riso gozo
olhar afiado e lançado ao pormenor.
Não sou mais eu,
mas quem me pinta. E vê
o que a mente mastiga, e sacia
por observar.
Corpo, carne. Oco
sem para além. Apenas aqui.
Não em mim.
Não sou mais eu,
mas as histórias criadas,
boatos fantasma.
Perfeito inventado como flecha
para quem nunca chegará.
Metade. Valho menos.
Água e sangue. Ou apenas tinta.
Sou mais eu,
quem não conheces.
Ressaca
Um golo a mais de juventude
Pensar em não pensar, efémero
de nada ser o resto
ou onde o fumo levar.
Uma lágrima de velhice
mascarada por alegre ser,
gritos intervalados de ofego
e desfecho brutal em si.
Mais um golo de insanidade
Aqui, fechada em mim
E um bafo de delírio
Lá, para além de ti.
Momentâneo, me socorro.
Um breve e doloroso alivio
que volta e martela recordando
que o real não é superado
nem por mim ou por ti. Pelo martírio.
De tudo, nada.
objecto.
Se nadas, foges,
no claro.
Desconhece o conhecido,
que na sombra se vai.
Procura de vida,
experiência. Novidade
que se rejeita.
Exposta no claro,
pessoa.
Se páras, ficas,
no escuro.
Há?
Há quem pense que talvez não pense. Ou que sinta o que penso e desminta o que sinto. Põe-se a hipótese de, imagine-se, até mentir sobre a verdadeira razão do ser real que tanto imaginei.
Mas o ilegível não é permitido? O sonho é caminho. Armadilhado, certamente.
E quando me perco? Quando, será?, o trilho se desvanece e nada me segura o andar. Flutuo porque não tenho chão.
Resta saber quando caio.
Há quem ache que acho demais. Ou que reaja pelo coração de forma racional. Até, acredite-se, ser demasiado a irrealidade do real que é ser-se o não ser.
Flutuo.
Caio.
Há quem ache que desistir é não se ser. Mas ser, ser é a incógnita decisão, a tênue barreira entre o ir e ficar.
Flutuo.
Caio.
Vou.
Névoa
Que fumo passa, percorrendo em direção ao caminho certeiro. Cruzo a cabeça e vultos trespassam-me. Finjo-me insensível ao bruto calafrio que me atravessa a espinha. Nada. Silêncio em demasia mas a calma está longe. O sol já se pôs há demasiado tempo e a luz lunar enfraquece.
Procuro guia. Perdeu-se. Ou talvez fartou-se de me acompanhar.
Caminho. Apresso-me. A escuridão empurra-me. Tropeço... Em ti. Irás agarrar-me? Cairei outra vez?
Corro. Serás minha sombra? Talvez imaginação.
Paro. Escuridão plena. Estou só. Nao te vejo.
Resgate. Virás?
Infância
O lixo cercado
Varrido para o canto
Escuro e vergonhoso
Esmagado por almas.
A boneca desprezada
Antiga e usada
Não ve ou sente
Que o pó repousa nela.
Pois a brisa que limpou
Que brincava querendo
Só mais um segundo
Na infância amorosa,
Essa brisa que secou
Que deixou no escuro
Canto a boneca usada
Que se apaga, que se desfaz...
De não mais ser desejada.
Reverie
Anestesia
Dormente começa
O estado de tamanha apatia
Que alienada com o tudo
Sorri bufando alegria
Sorri cuspindo azia.
Apagão de Norte a Sul mental
Histeria da tensão muscular
Ocular, sentimental.
Dormente começa
O estado de brutal anestesia.
De dez para um conta
E finge morrer para o real
Apagando memórias
Movimentos e fala.
Surge o desejado efeito:
Cala.
À beira do limite remoto
Silêncio são mil falas perdidas
Descobertas no profundo da berma.
São olhares não vistos à procura de secar.
Mágoa.
Pensamentos a descongelar
À luz da razão emocional.
É a imaginação vergonhosa
Rotineira ou desigual.
É o verdadeiro eu,
Desumano, afinal.
Mas se o silêncio gritasse
Oh, se contigo criasse diálogo
Não seria mais pronfundo, seco, escondido, perdido: real.
Fórmula
Do espírito cruel que finda
A vida em dor e mágoa
Ou felicidade irradiada em si
O que sobra é paz
Que se esgueira por entre os dedos
E corre, foge, abala
Assustando as hipóteses de vida
O que basta é mutação
Ou escassamente uma prova
Um olhar de novo do passado
Espelhando o futuro
E me calo, refúgio no silêncio
Mas nada existe, não me lutam
Só, me fecho. Sola não existo.
Apenas o sopro me acordará