Por vezes a vida é estúpida. Não passa de tempo a correr, retardando os passos para que a hora aumente.
Segundo a segundo consome-nos o desejo de sempre mais querer e querer.
É puro bluff, o passar dos minutos é somente chantagem comigo mesma. Termina; começa; agora; já passou e nem dei por isso.
Não existe controlo, só existe o deslize do relógio pelas minhas mãos.
Existe o desperdício, as palavras que não são ditas, as zangas sem sentido, as estranhezas sem intenção que nos fazem perder.
Tempo.
Vida.
E assim choro, páro e cego.
Mais uma vez. Outra vez.
Porque os segundos se transformam em dias e dias em pedaços de existência.

E é atingindo-me a mim mesma que torno a ver e a cegar. Ofendendo-me e desprezando que torno a caminhar.

Tempo?
Continua a contar.
Silêncio escondido,
Tão sombrio que assusta meu ser.
Silêncio temido,
Que vagueia no vazio até doer.

Me assombras, desconhecido
Objecto que pesquiza a solidão.
Te interrompes com meras promessas
De amores vazios a que dizes não.

Pobre viajante que te evaporas,
Suplicando num instante
Porém, porque te demoras?

Silêncio escondido,
Meu fiel e tenebroso amigo,
Me trazes do passado
O futuro prometido
De uma vida a seu lado.
Sentada olhava,
Sentia.
O vento acompanhava-la,
Corria.

Nada mais sublime penetrava
Em tão refundido coração forte,
Repetido, rasgado sem emoção
Espelhada da própria morte.

Só o vento a percebia,
Acalmava.
Só ela o conhecia,
E calava.

Íngreme era a dor que aplaudia
E pensativo era o meticuloso adjectivo
Que mudava só para ela rir
De sarcasmo que tanto pedia.

Bloqueada e habituada,
Suspirava.
E o vento como ela,
Amava.
Navegador do Nada
Que embarque de dor navega,
Desesperando resgate eterno?
Procura o firmamento que cega
A possibilidade de o tornar sereno.

Contra rochas se vai quebrando,
Fugindo ao mais cruel furacão
Que se avizinha da temivel escuridão.
E rema, sozinho rema forçado
Chegando ao destino tão amado.

Conta os dias, porém a maré atrasa
Passam as noites mas o vento não passa
E se chora por solidão, suspira
Uma esperança de nova vida.

Era como se houvesse um caminho inevitável a seguir. Nada mais seria capaz de existir nem o andar pelos passos certos. Uma força indestrutível guia aquilo que era impossível de avançar. É uma espécie de pesadelo fantástico, um imaginário tão real quanto a vida.
Uma balança que equilibra algo cujo peso é incalculável. É estranhamente tão límpido como o brilhar do sol num dia tão nublado em que a claridade é algo escasso. Vê-se tão perfeita paisagem, bem longe, sente-se a brisa que arrepia tão fina camada de pele que cobre o frágil corpo destapado. Não é a vergonha que cobre as faces de rosa, não é o calor, não é o vento gelado que se sente. É o choque, o choque sentimental, repentino e cruel de uma forma tão doce que o próprio corpo estranha.
Uma revolução na mente, uma lavagem tão profunda que o tempo por si não é proporcional. Uma prolepse que só o singular entende. É uma história cansada de tantas vezes ser lida, mas é renovada e ninguém percebe, é diferente e ninguém nota.
Porque é que o choro tem de ser sempre de tristeza ou de alegria? Há aquele sentimento que por ser tão explicado deixa de ter explicação, esse sobrevoa todos os outros e passa a algo tão significativo que o próprio dicionário se torna mentira. A mentira a que todos estamos habituados, a mentira que é a vida.
Nada parece ter sentido, o que sentimos torna-se numa confusão tal que só assim a existência pode continuar. É o meu pensamento. É o meu sentimento. Resta o sorriso que todos esperam, que todos já se habituaram.
                Por uma vez só, deixem que habite tudo aquilo que ainda há para contar.
São contos de fadas, apenas contos de fadas - dizem-nos.
E se for real? Não pode ter um toque mágico? Acredito em sonhos, respiro a esperança.
Acredito em algo mais do que a simples banalidade da rotina diária.
A vida é bem mais que isso. Porque não acreditam? É possível.
Visualizem para além dos limites que nos são impostos pelo mundo adulto.
Visualizem o que há por descobrir, o que é incerto, o que todos têm medo de alcançar por ser tão perfeito.
É duvidoso o mundo da felicidade, é inseguro, é improvavél e tão longiquo.
É tudo isto porque o afastamos. Porque quanto mais o tentamos alcançar, mais ele foge de nós.
Porque por vezes está tão perto e os nossos olhos não o visualisam. O coração sente mas pensamos que é enganador.
Cuidado, ela está escondida mas nunca, nunca está perdida.
Voltemos à infância e alcancemos a capacidade de brincar às escondidas, achando aquilo que é o mais maduro possivel.
É vida meu amor,
Vida da mais pura,
límpida, suave com fugor,
É vida sim, doçura.

É um claro sorriso rasgado
Da mais simples invenção
real. Um sentimento apertado,
a mais louca insanidade
Surpreendendo a reacção
que é a vincada verdade.

É um suspiro tão breve
e prolongada intensidade.

Miriam Andrade
Não o ouves a bater? Eu oiço. Forte, acelera à medida que o toque atinge.
Não o sentes a explodir? Eu sinto. Atinge limites inexistentes.
Porque bate, explode, derrete, grita num sussurro tão silencioso que só tu podes ouvir.
Talvez seja loucura momentanea, talvez seja espirito inovador que necessito.
Poderá ser chama que gela e me faz inalar esperança.
Mas quero. É errado querer?
Sensação estranha, nova, mas subtil. Vontade de tentar, de me libertar, de poder escolher o que penso que é certo.
Preciso de uma rocha fixa. E a rocha, necessitará de mim?
O tempo dita, conta e reconta. Mas odeio o tempo, o tempo que me foge, o tempo que se oculta só para nao o poder alcançar.
Queria poder espreitar o sopro do futuro.
O teu ego te nega
A possibilidade de te encontrares
Com a verdadeira vontade
De por mim te apaixonares.

É ilusão, escondida ilusão;
Particula do orgulho
Que corta a respiração
e cobre o olhar.

Sádica vida, rotina fixa,
oportunidade arruinada
Por ti feita água pura
que por egoísmo é deitada.

Palmas se ouvem, se batam
Sim, para ti Homem vivo:
Felicitam-te a capacidade
de esconderes a verdade.

Miriam Andrade
Já me olhaste?
Falo a sério, já me viste, bem de perto?
Parece-me que não, nunca.
Sei que nunca me conseguiste ver.
Porque será?
Porque nunca, nunca ás-de sentir o que eu sinto,
Porque nunca, nunca ás-de conseguir me perceber,
Porque nunca, nunca ás-de conseguir-me amar.
Porque nunca, nunca ás-de conseguir-me ver.
Rasga tanto que não nota
o ardor que m'envolve,
é a estrutura solta,
a razão do desentendimento,
que por espirito se absolve.

A incompreensão ambunda
e o desejo acompanha o crescimento
a vontade que nego, me sufoca,
pelo facto de tentares o momento
e não poder dizer o verdadeiro,
sair sem sendo por inteiro.

Confusa tempestade de emoções
me faz odiar o novo clima.
Mentira, digo mentira,
refugio toda a verdade que te pertence,
indecisa de que será o melhor a fazer,
medrosa de tudo
o que o futuro tenha para me oferecer.

Ansio a mudança,
mas não a consigo visualizar,
Ocultou-se tao breve esperança
de que por suspiros,
me fez parar.

Miriam Andrade
Pensei que quisesses pensar comigo. Juro, interroguei-me.
A minha dúvida subornava a tua, sem que ninguém desse conta. Mal ou menos, o suborno deu o pior resultado possivel, mas mesmo assim presisti em ti e avancei.
Como e dificil caminhar sem pés, já alguma vez experimentaste?
Tenta. Uma unica vez e verás o que é estar em mim. Desafio-te.
Tento conhecer algo para além de ti
Daquilo que já se encaixa no meu ser
De tudo que sobrevoa a mente
Do pouco que deixei merecer.

Esforço o ar que engolo
Aponto o medo que me denunciou
E denuncio-me, deixo-me prender
por alguém.

Cela clara, cheia de liberdade:
fechada no mais profundo escuro
Escondida por alguém que procuro
Alguém, simplesmente alguém.
Hoje tive a mais esplendida e brilhante ideia : respirar.
Pensei que por momentos tivesse a alucinar e que era algo que fazia parte do meu incenssato dia-a-dia. Mas é inteiramente uma não-verdade.
Porque não? Porque não posso de vez em quando dar um pouco de espaço a minha cavidade respiratória? É bom, para variar.
Hm... senti a percorrer o ar pelas veias, arrepiei-me e estava quase, quase a expelir o ar. Quase.
Mas prendi-o no meu ser. Ah, agarrei-o fortemente e não saiu de mim. Permaneceu... e incrivelmente ele quis ficar.
Respirar? Para quê?
Talvez só quando tiver preparada. Talvez.
Suave, subtil pena,
Metáfora da vida, lenta
música: sinfonia do sentimento
que se torna peça solta
num encaixe de momento.

Leva preciosamente pela sua mão
o inverno que a derrete e congela,
mas em pé de Cinderela
foge da ameaçadora razão.

Suave como subtil pena,
enforca o sorriso num dia perdido,
percorre a circulaçao que rapidament
mata o desejo que lhe fora proibido.

Volta agora a respiraçao,
batimento do seu proprio ser,
ressuscita a (falsa) razão
de querer, mais uma vez,
viver.

Miriam Andrade
Que incógnita mensagem me transmites?
Que sentimento do passado me devolves?
Que voz tenho de ouvir para entender?
Que é este mar bruto e vazio onde me envolves?
Que rompimento de alma a caminho de meu ser?

Se é o vento que queres que guarde,
Como o irei fazer?
E se é a chuva que queres que pare,
Que sinal a fará temer?

Socorre-me neste invulto pesadelo,
liberta-me deste cadeado enferrujado.
E por caridade de amizade (talvez)
Devolve aquilo que me era desejado.

Miriam Andrade
É uma repetição da falatória.
Sempre o mesmo, diferenciado.
Algo inclassificado.
É um suspiro que nunca acabará.
Agora refugia-te na mentira
convencida do saber
falso porém incógnito
que talvez morra a sofrer.

E agora pensa na interrogação
convencida de mim
de um todo que não existe
e que pressiste em ti.

Foge agora para o futuro incerto
corre para a fase seguinte,
anda para o que sentes ao certo,
pára naquilo que insiste.

Miriam Andrade
Caminho sobre pedras
escaldadas pelo vento
geladas da discussão prepétua
agarrada a um sentimento de raiva.

Espuma pelos cantos da boca
Socorre o nojo que sente ao pensar nele,
Ah, pedras caidas que me magoam o andar
Feridas me pões no pensamento que a chorar
se ri do passado que foi deixado acontecer.

Soco na barriga vazia, seca
Chapada marcada, com território fixo
Mente vaga, mente fraca
Acudida por ninguem.

Eu e só eu.
Pronome pessoal deixado no vacuo,
Aqui, a gritar sem ninguém ouvir.

Miriam Andrade
Confunde-me o futuro. Sim, baralha-me.
Temo-o mais do que tudo.
Reserva-me a minha vida e caminhos que desconheço. Palavras e decisões que não me passam pela memória. Olhares e cheiros que nunca se econtraram comigo.
Gemo aterrorizada com medo que ele me apanhe em falso e me surpreenda negativamente.
Irei fugir? Ou ficar e passear na avenida que temo?
Reserva-me a minha vida e caminhos que desconheço.
Todos eles venham e deixem-me viver.

Miriam Andrade