Seguro nas mãos algo sem vida,
Frio, gela meu corpo por inteiro,
(Não o quero largar, já fez parte de mim)
Sinto de leve a brisa de seu cheiro
Aroma a dor, sofrimento, mágoa
Um pequeno trave a amor
Com medo por inteiro

E continuo a segurá-lo
Metade de mim ainda luta por ele
Encosto-o junto ao meu peito,
Acariciando-o, penso em quem mo tirou,
Em quem o feriu.

E uma lágrima minha o molha,
O faz arrepiar,
E me faz notar,
Que preenchia algo vazio, no meu lado esquerdo,
um buraco à espera
de preenchimento.

Percebi,
Aquele algo frio, sem vida,
era o que me faltava no peito,
à muito retirado e perdido,
aquilo que apanhara do chão,
meu probre,
pobre coração

Miriam Andrade
Já guardei o que tinha escondido
Já escondi o que tinha guardado
Já raspei até ferir
Cada gota do sólido olhado
Esbofeteei até sorrir
Para que nada seja notado

Já atirei o que tinha abraçado
Já abraçei o que tinha atirado
E gritei, falando calmamente
E gemi, com a dor serena
Sem nada se notar, ri
E mais uma vez,
Camuflada por mim,
Fingi.

Já explodi o que continha
Já contive o que tinha explodido
E habituei-me ao real,
Vivo o sobre-natural,
Caminhando sobre pedras imaginárias
Respirando esperanças temporárias
Acordando de um grande sono
Injectado por pesadelos
E deixado por ti.

Miriam Andrade

Adeus


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mão à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus

Eugénio de Andrade
Em "ponto morto", assim me encontro
Em algum ponto distante, mudo
Preso sem fechadura,
Mas fechado como o paraíso
E guardado sem ninguém saber.

Em "ponto morto", escuro e torto
Em algum lugar sem nada,
Sem vestigios da madrugada
Ou da noite sem fim

Em "ponto morto",
Em sentimentos vazios,
Cheios de desconforto e incerteza
Cobertos por algum medo
Sabendo por dentro, presa.

Miriam Andrade